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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Em terra de técnicos, quem tem inteligência emocional é rei!





Desde que a mística do QI (Quociente de Inteligência) foi revelada, podemos dizer que considerar o intelecto como único fator para o sucesso está para o entendimento sobre a inteligência (ou as inteligências) como a ideia de que a terra é plana, para os estudos espaciais, por exemplo.

Aqueles que seguem crendo e defendendo a importância da medida da inteligência com base em critérios que levam em consideração somente a excelência intelectual, negligenciam ou ignoram todas as evidências, inclusive da Neurociência, sobre a importância do desenvolvimento da inteligência emocional. Isto porque, dentre outros argumentos,


A neurociência demonstra de forma cristalina por que a inteligência emocional tem tanta importância.
Os antigos centros cerebrais da emoção abrigam também as habilidades necessárias para conduzirmos nossa própria vida da maneira mais efetiva, e para desenvolvermos nosso sentido de convivência social. Portanto, essas habilidades estão enraizadas em nossa herança evolutiva voltada para a sobrevivência e a adaptação. (Goleman, 2011)

E quanto à Gestão de Pessoas nas escolas? Num tempo em que desenvolver habilidades socioemocionais já é parte do currículo escolar, como os sistemas de ensino têm se voltado ao desenvolvimento destas habilidades ou competências em seus gestores? E estes gestores, individualmente considerados, em que medida o confronto com as limitações da excelência técnica os tem direcionado a revisar as pautas de seus projetos pessoais de formação?

Sempre que tenho a oportunidade de desenvolver esse tema junto a esses profissionais, gosto de provocá-los a buscar na memória um gestor que considerem um exemplo positivo muito importante. Em seguida, os levo a refletir sobre as habilidades de empatia, liderança, otimismo, capacidade de negociação e tantas outras ligadas ao relacionamento humano, observadas no comportamento desta pessoa. As lembranças que surgem trazem sempre a figura de alguém que tinha as habilidades relacionadas à inteligência emocional muito desenvolvidas, independentemente do seu nível de competências técnicas. E eu não estou dizendo que estas possam ser dispensadas, ao contrário, não consigo imaginar um bom gestor, especialmente escolar, que não invista pesado em conhecimento técnico!

Nessa tendência, vejo experiências de profissionais - alguns bem jovens, inclusive - que são verdadeiros modelos, tanto na forma como conduzem os desafios do cotidiano, quanto na maneira inovadora como ajudam as pessoas a desenvolverem sua inteligência emocional, e isto sem perder de vista o Projeto Político Pedagógico e a diversidade de pessoas, papeis, interesses, etc presentes na escola. Desafio gigantesco!

Essas experiências são possíveis, porque habilidades emocionais podem ser aprendidas, com maior ou menor grau de dificuldade de acordo com características individuais, mas, sim, podem ser aprendidas e isso é muito bom!

É preciso falar mais sobre habilidades emocionais na gestão escolar, estudar mais, pesquisar, trocar experiências e investir nisso.

Nesse sentido, quero compartilhar esses breves apontamentos de Daniel Goleman, em seu livro “Trabalhando com a inteligencia emocional” (Objetiva, 2011) onde ele discorre sobre alguns equívocos comumente associados ao conceito de Inteligência Emocional:


Em primeiro lugar, inteligência emocional não significa simplesmente ser simpático. Aliás, momentos estratégicos podem exigir confrontar alguém com uma verdade desconfortável, mas significativa, que esta pessoa esteja evitando.

Em segundo lugar, inteligência emocional não quer dizer liberar sentimentos, "botar tudo para fora". Diferentemente, significa administrar sentimentos de forma a expressá-los apropriada e efetivamente, permitindo às pessoas trabalharem juntas, com tranquilidade, visando suas metas comuns. E mais: as mulheres não são mais espertas do que os homens, nem os homens são superiores às mulheres, no que diz respeito à inteligência emocional. Cada um de nós possui um perfil próprio, com pontos fortes e fracos. Alguns podem possuir mais empatia e carecer de aptidões para lidar com suas angústias. Outros podem ter percepção apurada para a mais sutil mudança em seu estado de espírito, mas ser socialmente ineptos.

Por último, nosso nível de inteligência emocional não está fixado geneticamente nem se desenvolve apenas no começo da infância. Ao contrário do QI, que pouco se modifica depois dos nossos anos de adolescência, tudo indica que a inteligência emocional pode ser, em grande parte, aprendida e continuar a se desenvolver no transcorrer da vida, com as experiências que acumulamos. Nossa competência em relação à inteligência emocional cresce continuamente. Na realidade, estudos que acompanharam alterações no nível de inteligência emocional em diversas pessoas, ao longo dos anos, mostram que estamos sempre nos aprimorando, na medida em que aprofundamos nossa capacidade de lidar com nossas emoções e impulsos, de motivar a nós mesmos, e apuramos nossa empatia e nosso traquejo social. Existe uma palavra um tanto fora de moda para esse crescimento da nossa inteligência emocional: maturidade.
  
Gosto da ideia de repensar conceitos, e este excerto, de forma tão breve, o faz muito bem, especialmente por provocar a revisão de padrões baseados em senso comum, que muitas vezes se cristalizam e acabam, por fim, inviabilizando as mudanças que tanto precisamos.


sábado, 10 de maio de 2014

Com que mãe eu vou?


Um casal. Duas mães. Com qual passar o Dia das Mães?

Quem de nós não conhece histórias de desentendimentos familiares em datas comemorativas como o Dia das Mães? Mães que não aceitam ser “trocadas” pela sogra, filhos (as)  que se sentem divididos entre agradar a mãe e o (a) cônjuge etc.

Se buscarmos uma solução objetiva para a questão, teríamos uma proposta: a esposa fica com a mãe dela e o esposo com a dele. Resolvido. E teríamos uma comemoração de meias famílias. Resolvido?

Eu poderia elencar muitas soluções criativas que as pessoas encontram para agradar gregos e troianos nessas situações, mas não é meu objetivo.

Não pretendo apresentar uma solução para esse dilema familiar, somente fazer algumas provocações.

Podemos partir de um princípio inconteste:

O Dia das Mães é uma data criada com o objetivo implícito de obtenção de lucro.

É curioso observar que todas as datas comemorativas acompanhadas da “necessidade” de se comprar presentes não têm nenhuma origem histórica, exceto o Natal. Dia das Mães, dos Pais, das Crianças, dos Namorados. Quais os fatos históricos que deram origem a cada uma dessas datas? Nenhum.

Alguém poderia argumentar: “Ah, mas o Dia dos Namorados é comemorado no dia de Santo Antonio, o santo casamenteiro!” Verdade, mas o a história que acompanha a data é a de Santo Antonio, não dos namorados. O Dia dos Namorados foi “instalado” no dia de Santo Antonio, e não por acaso. Poderia ser, inclusive, o Dia dos Casados, mas certamente geraria menos lucro.

Partindo desse princípio, podemos dizer que há muitas convenções a serem desconstruídas, pois não fazem o menor sentido.

Em outras palavras, a questão não seria discutir se o presente deve ser um jogo de panelas ou um jogo de maquiagem, por exemplo, – até porque há mães que não se maquiam e mães que adoram cozinhar com panelas novas e bonitas – a questão é desconstruir essa obrigatoriedade de se comprar um presente.

Penso que – um dos – caminhos deva ser o diálogo em família. As crianças devem ser provocadas a refletir sobre as convenções e não reproduzi-las de forma acrítica. Elas podem, no futuro, escolher adotar todas essas convenções, mas conscientes de que são convenções, o que considero improvável.


Assim, se datas como essa são tomadas como pretextos para agregar a família, ótimo! Mas se, ao contrário, são motivos para desentendimentos, brigas e frustrações, está na hora de rever valores.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Adolescência: quem está nessa fase, você ou seus filhos?

Gosto muito da abordagem educacional de Rosely Sayão*, em especial de sua forma ousada de não se utilizar de luvas de pelica para tratar das responsabilidades dos adultos em relação às crianças e adolescentes.

No artigo "Adolescência até quando", ela aborda a questão da incoerência de alguns comportamentos, considerados adolescentes, em pessoas mais velhas: 

[...] características antes creditadas apenas a adolescentes 
passaram a fazer parte da vida adulta também. 
A impulsividade, o imediatismo, a busca do prazer 
e da liberdade e o comportamento de risco, por exemplo, 
passaram a ser fatos corriqueiros na vida dos mais velhos.

Numa época em que as redes sociais explodem em rasas homenagens ao Dia das Crianças, insisto em provocar reflexões sobre qual é o papel do adulto na relação com elas. 

Enquanto pais viverem numa eterna adolescência, seus filhos estarão à mercê do acaso. É preciso, em primeiríssimo lugar, que o adulto reconheça-se como tal nessa relação que é, por princípio, entre pais (adultos) e filhos (crianças ou adolescentes).




*Rosely Sayão é psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação.

domingo, 6 de outubro de 2013

Criança e criatividade: termos indissociáveis

Estando muito próximo do Dia das Crianças, é possível observar o burburinho do comércio e da mídia na oferta das melhores possibilidades de se atender aos seus pedidos e, supostamente, torná-las mais felizes.

Fiquei pensando sobre as reais necessidades de nossas crianças e os motivos que realmente as tornam felizes, contribuindo para uma infância e um desenvolvimento saudáveis.

Ken Robinson, especialista em criatividade na educação, faz uma análise bem humorada da atual conjuntura educacional, trazendo as imagens do modelo de linha de produção – fortemente presentes na escola – e os mecanismos que restringem a criatividade dos alunos. Nesse contexto, considera falsa a epidemia de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) observada, e destaca os efeitos destruidores da medicalização nas crianças: “Um anestésico apaga os sentidos e muitos desses remédios fazem isso... Você se apaga do que está acontecendo. Estamos educando nossas crianças enquanto anestesiadas, enquanto deveríamos estar acordando-as para o que está dentro delas.”



Só se pode concluir que criança feliz é criança que pode explorar sua criatividade. Nesse sentindo, satisfazer os desejos infantis é o oposto de anestesiar seus sentidos, já que suas necessidades de atenção e afeto não podem ser substituídas por presentes... Nem remédios...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Liderando como os grandes maestros




Vídeo sensacional!

Itay Talgam fala sobre os tipos de liderança que os maestros exercem junto às suas orquestras e não há como deixar de fazer uma analogia com o papel dos gestores de pessoas nas organizações, especialmente as escolares. 

Num concerto, as histórias se fundem. Há a história da orquestra, como instituição; do público, como comunidade e dos músicos. Há, ainda, outras histórias ocultas, das pessoas que construíram a sala de concertos, tão linda, das pessoas que fizeram aqueles instrumentos bonitos. E todas elas são ouvidas ao mesmo tempo. Essa é a real experiência do concerto ao vivo.

O funcionamento de uma organização é também uma fusão de histórias sob o comando de um “maestro” que, como nos mostra Talgam, carece mais de sabedoria, leveza e cumplicidade, que de controle rígido e impessoal, afinal, a música original ficará sempre e tão somente na cabeça do maestro, a audição do concerto, para ser inebriante, deve permitir que venham à tona as histórias individuais, e o maestro, cálido de sua função, é o responsável por harmonizar esse conjunto.

O vídeo não traz um rol de técnicas para gestores, mas, de uma forma leve e descontraída, provoca a reflexão sobre o exercício da autoridade na atuação de um líder. Muito bacana!!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Falando sobre preconceito: Compreender ou aceitar? Caminhos e descaminhos da fraternidade.


Professor e filósofo, Mário Sérgio Cortella é, indiscutivelmente, um grande destaque na história da educação brasileira, especialmente pela capacidade que tem de tratar temas de conhecimento científico com simplicidade, leveza e simpatia incomparáveis.

Na sua coluna “Escola da Vida” na rádio CBN, em 04/12/2012, quando São Paulo amanhecia sob as manchetes da agressão ao jovem estudante de direito e a decisão do TJ, determinando que o Club Athlético Paulistano aceitasse a inclusão do companheiro de um de seus associados como dependente no título familiar, Cortella falou sobre discriminação e preconceito dando uma legítima aula.

Excertos de sua exposição sobre a diferença entre compreender e aceitar delineiam a ideia de forma simples e clara.

Compreender é fundamental: “ O preconceito não expressa apenas uma opinião, expressa uma insegurança da pessoa em relação ao modo como ela se comporta. Mais do que rejeitar a outra pessoa, há uma certa dúvida em relação ao seu modo de conduta na medida em que outros modos de ser colocam isso em xeque. Por isso, temos que nos perguntar:  se eu tenho preconceito, qual é a fonte desse preconceito, a opinião contrária à minha ou algum espanto ou insegurança que carrego.”

Aceitar ou rejeitar sem antes ter compreendido é preconceito: “Preconceito é um conceito prévio, uma avaliação prévia positiva ou negativa em relação a alguém, a alguma ideia ou alguma coisa. Existe preconceito a favor, por exemplo, eu tenho simpatia a alguém simplesmente porque ela torce pelo mesmo time que eu. O preconceito é sempre anulador do senso crítico já que perturba a capacidade de uma avaliação mais séria. Quando negativo, o preconceito pode se transformar em discriminação, isto é, em afastamento, em recusa, em rejeição à outra pessoa apenas porque ela não é como eu considero correto, por isso a passagem do preconceito à discriminação não é estreita, é larga, podendo chegar até à agressão física, á violência.”

O perigo implícito nos atos de discriminação: “Eu preciso olhar aquele ou aquela que não é como eu, como sendo diferente e não como sendo menos. Eu posso, por exemplo, ter convicções políticas, éticas e partidárias que digam que alguém, que não é como eu, não está no caminho certo, mas isso não dá a mim, de forma alguma, o direito de produzir violência física ou moral contra essa pessoa. E quem o faz é absolutamente inseguro. Toda a vez que se tem de usar o exagero, a exacerbação, o transbordamento, é porque se perdeu a razão. Nesse caso, a violência é, mais que tudo, irracional e tem de ser combatida, pois alguém que é capaz de fazer isso com alguém por  ter uma orientação sexual diferente da sua, será capaz de fazer também com quem tem uma religião diferente, um time de futebol diferente, um partido diferente.”

O verdadeiro sentido da palavra fraternidade: “O diálogo pela paz começa pela  ideia de que você não é obrigado a aceitar, mas precisa compreender, isto é, precisa acolher a possibilidade da diferença. Compreender não é aceitar, fazer com que a pessoa que não é como você seja entendida apenas como uma outra pessoa, embora diferente, é um sinal de dignidade e, aí sim, está o verdadeiro sentido da palavra fraternidade: eu não quero, talvez, ser como o outro é, mas não posso negar que ele seja assim porque ele pode – sim – ser desse modo e, mesmo que eu não aceite, a compreender sou obrigado.”

In: http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/mario-sergio-cortella/2012/12/04/ESCOLA-DA-VIDA-COMPREENDER-E-DIFERENTE-DE-ACEITAR-MAS-REJEITAR-SEM-COMPREENDER-E-PRECO.htm

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Da travessia à consciência

fonte da imagem:www.noticiasnx.com.br

Já que estamos comemorando a semana da CONSCIÊNCIA negra, é bem bacana aquecer esse movimento de consciência com um pouco de memória...

Sou declaradamente a favor do sistema de cotas no Brasil! É impossível conhecer a história da escravidão sem se solidarizar com as pessoas que sofrem hoje as consequências de um passado de absoluta crueldade. Desse ponto de vista, comprometer-se politicamente com a reparação não é opção, é humanidade.

A travessia no Atlântico*

"Os navios que negociavam e transportavam escravos eram chamados de navios negreiros ou navios tumbeiros, nome que é derivado de "tumba", devido à quantidade de escravos que morriam em seus porões. Calcula-se que 20% dos escravos africanos embarcados nos tumbeiros morriam durante a travessia pelo oceano Atlântico.

O tumbeiro poderia ser uma nau, um bergantim, uma corveta, dependendo do desenvolvimento tecnológico da época (o tráfico atlântico de escravos durou quatro séculos e durante esse tempo as técnicas de navegação mudaram muito).

Em geral essas embarcações transportavam entre 400 e 500 escravos, todos confinados num porão. Os negreiros (comerciantes de escravos) compravam escravos a mais do que sua embarcação comportava, pois sabiam que perderiam muitas das suas "mercadorias" durante a viagem, e assim superlotavam suas embarcações.

Uma viagem entre Angola e Brasil durava 35 dias. E entre Moçambique e Brasil demorava em torno de três meses. Os alimentos e a água potável transportada por esses navios eram insuficientes até mesmo para a tripulação (trabalhadores do navio), pois não existia nenhuma forma de refrigeração.

Os escravos, confinados na parte mais insalubre do navio, passavam por situações das mais terríveis. Não sabiam onde estavam, ficavam apertados num espaço no qual não podiam ficar em pé ou se deitar, recebiam pouca alimentação com baixo grau de nutrientes (basicamente: feijão, farinha de mandioca e carne seca). Mal recebiam água para beber. E, enquanto isso, pelas frestas da embarcação feita de madeira, a água do mar ia aos poucos invadindo o chão do porão.

Famintos, fracos e doentes, os escravos não tinham mais nada em que acreditar. O desespero era tanto, que alguns dos cativos aceitavam vigiar e punir seus companheiros de sofrimento em troca de um pouco mais de água. Os rebeldes eram, normalmente, envenenados. Os mortos eram atirados ao mar.

Nessa situação de tamanha infelicidade, pessoas que nunca tinham se visto antes, que nem sequer falavam a mesma língua, se ajudavam. Repartiam a pouca comida. Consolavam-se. Essa amizade, essa solidariedade que surgia nos tumbeiros era chamada de malungo, ou seja, amizade de travessia, que algumas vezes se perpetuava para a vida toda.

São comuns os relatos sobre a enorme felicidade dos escravos ao aportarem no Brasil, o que era interpretado na época como se os africanos estivessem alegres por se libertarem da vida pagã africana ao chegar ao mundo cristão americano. Esse foi um dos argumentos mais eficientes para legitimar a comercialização de gente na época."

* Érica Turci. In: "Tráfico de escravos: Mercadoria humana atravessa o Atlântico" (http://educacao.uol.com.br)

domingo, 16 de setembro de 2012

"Simba, torna-te o que és!" Memória como promotora do conhecimento necessário à transformação


A ideia de que o conhecimento é infindo faz da tarefa de ensinar, fundamentalmente, o exercício de evocar o que já se sabe para ampliar, reorganizar e transformar, construindo novos saberes que, a certa altura, promoverão outros, num ciclo sem fim, em que a memória (o passado) estará sempre presente.

Nossa memória, imersa no espírito dos tempos modernos, vincula-se somente a projetos imediatos. Nesse sentido, o filme “O Rei Leão”, traz uma ilustração bastante interessante da importância de se evocar a história pessoal a fim de construir as pontes necessárias entre passado e presente e não suicidar o futuro, no caso, do bando. 

Rafiki, o sábio babuíno que batizou Simba, foi o responsável por abrir-lhe os olhos em relação ao seu passado, provocando-o a superar a apatia, apropriar-se de seu papel na história e tornar-se o verdadeiro rei. Eis um curto diálogo entre os dois personagens:

Rafiki: O tempo está estranho, você não acha?
Simba: É, o vento deve estar mudando.
Rafiki: Oh! Mudar é bom!
Simba: É, mas não é fácil. Eu sei o que tenho que fazer, mas se eu voltar tenho que enfrentar o meu passado. Eu tenho fugido há tantos anos...
(Rafiki dá uma paulada na cabeça de Simba)
Simba: Ai! Ei, que história é essa?!
Rafiki: Não interessa, está no passado! (risos)
Simba: É, mas ainda dói!
Rafiki: É, o passado pode doer, mas do jeito que eu vejo você pode fugir dele ou aprender com ele. Ah! Entende? E o que vai fazer?




Incomodado pelo sábio, Simba, que até então negava sua memória, passa a reconhecer-se como autor de sua história e, portanto, de seu passado, presente e futuro; se vê atormentado pelo desafio de ter que decidir entre assumir suas responsabilidades como rei, ou seguir com seu estilo de vida despreocupado (hakuna matata). Estava estabelecido o desequilíbrio necessário, a ruptura consciente para promover a transformação. O conhecimento, agora sim, renovado, dava margem a novas possibilidades.

Como bem lembra o professor Jean Lauand, a mais famosa sentença de Píndaro – “Torna-te o que és” –  é bastante apropriada nesta interpretação. Simba, esquecido, alheio à sua memória, não era rei, para tornar-se o que era em essência, o papel do sábio foi imperioso. Na carona dessa analogia, deixo uma reflexão/ provocação: Nossa educação escolar carece de sábios, de reis ou sequer precisa desses personagens? 

domingo, 26 de agosto de 2012

Trabalho sem fim?

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Óleo sobre tela de by Franz von Stuck (1863/1928)

Na mitologia grega, Sísifo foi condenado  pelos deuses a carregar uma grande pedra até o alto de uma montanha e quando chegava lá, a pedra rolava abaixo obrigando-o a retomar o esforço,  num trabalho sem fim.
Trago o mito que deu origem à expressão “trabalho de Sísifo”, para uma representação do que sentimos quando nos deparamos com um trabalho entediante e que parece nunca ter fim, numa breve reflexão do trabalho na escola.
A ideia de trabalho como castigo remete, inversa e imediatamente, à de que somente nas horas de lazer, ou de não trabalho, se pode encontrar alegria ou prazer e, visto por esse ângulo, o dito popular “Descubra algo que você gosta de fazer e você nunca mais terá trabalho” faz muito sentido, servindo como uma espécie de superação do castigo posto. Diante disso, parece muito simples: ninguém mais será penalizado com trabalho à medida que se ocupa daquilo que gosta de fazer, certo? Sim e não. Não se pode negar que há profissionais que se envolvem com trabalhos que são uma espécie de prolongamento de seu lazer, são  tão evidentemente felizes que parece não haver martírio algum em seu cotidiano, contudo, sabemos que a vida profissional, via de regra, não se mostra assim. O dia-a-dia da profissão que escolhemos nos impõe desafios que não antecipamos, com os quais muitas vezes não sabemos lidar e a “pedra” vai se tornando cada vez mais pesada, a “montanha” mais alta e o trabalho, infindo e inócuo.
Na escola, a sensação de trabalho sem fim é agravada pelo fato de que se trabalha com o intangível. Conhecimento não se pode tocar ou medir. Avaliamos comportamentos de aprendizagem, mas muitas vezes, a mudança é tão tênue que nos remete à sensação de fracasso e impotência. Raras são as vezes em que podemos acompanhar a evolução da aprendizagem de um aluno a médio e longo prazo. Trabalhamos com uma lógica imediatista que não condiz com o desenvolvimento humano. E nos frustramos... E acreditamos que nosso trabalho é um sem fim de tentativas vãs... É claro que temos ações bem-sucedidas  que nos enchem de satisfação e energia, mas são os desafios apontados pelo suposto fracasso escolar que nos atormentam, nos tiram o sono e o sossego.
A superação do imaginário do castigo, que se consolida por essa  visão imediatista de sucesso escolar, talvez seja um caminho bastante próspero para o abandono da ideia do “trabalho de Sísifo” na educação. A busca de possibilidades, que se opõe ao apego às dificuldades, pode ser um exercício importante para que possamos envidar esforços reais para uma visão sistêmica de trabalho pedagógico, considerando o “sem fim” como um contínuo na ação do outro e não como algo que teria de ser acabado, posto que o conhecimento é infindo por natureza.

sábado, 25 de agosto de 2012

Bebê que "lê"


Fiquei encantada com esse vídeo, apresentado hoje, por Elvira Souza Lima, no curso "As contribuições da neurociência para a prática educativa”.
Como os neurônios-espelho agem e a criança (desde bebê!) aprende comportamento de leitura!
Observa-se o movimento dos olhos do bebê, as vogais não convencionais para a idade, a seriedade que expressa no ato da "leitura" (ela dá gargalhadas, mas somente quando larga o texto) e o melhor: o afeto que se constrói na relação que o bebê estabelece com o adulto...  É lindo!


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Pimentas na inteligência

Pouco se faz referência à importância da educação do olhar



Pimentas são frutinhas coloridas que podem provocar incêndios na boca. Há ideias que se assemelham a elas: podem incendiar os pensamentos. Nietzsche era especialista em ideias incendiárias. Um eremita que vivia na floresta, ao ver Zaratustra descer das montanhas para as planícies, percebeu que ele estava a fim de pôr fogo no mundo com suas ideias. Zaratustra sabia que elas queimavam e que muitos, ao lê-lo, " pensariam que estavam devorando fogo e queimariam suas bocas ".  Mas, para provocar um incêndio, não é preciso fogo. Basta a brasa, um único pensamento...

Van Gogh tem uma tela que representa essa cena: o pai, jardineiro, interrompeu seu trabalho, está ajoelhado no chão, com os braços estendidos para a criança conduzida pela mãe. O rosto do pai não pode ser visto. Mas ele está sorrindo. O rosto-olhar do pai diz para o filho: "Vem. Quero que você ande". É o desejo de que a criança ande que a incita ao aprendizado de algo que não pode ser ensinado com exemplos ou palavras. Aquele pai agachado, braços estendidos, não é uma linda imagem para o educador? A primeira tarefa da educação é ensinar a ver: assim Nietzsche resumiu sua filosofia da educação. É através dos olhos que as crianças tomam contato com o assombro do mundo. Os olhos têm de ser educados para que a alegria aumente. As crianças não veem "a fim de".  Seu olhar não tem objetivo prático. 

Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: "Veja!"- e ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande, fica mais rico interiormente e permite sentir mais alegria e dar mais alegria, razão pela qual vivemos.
Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didática - mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar  de qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar.

" O sentido está guardado no rosto com que te miro " (Cecília Meireles). Não te miro com os meus olhos. Te miro com o meu rosto. É o rosto que desvenda o mistério do olhar. O rosto da mãe revela à criança o segredo do seu olhar. O rosto da criança revela à mãe o segredo do seu olhar.  E o rosto do professor revela ao aluno o segredo do seu olhar.

" O meu lábio zombeteiro faz a lança dele refluir ". (Adélia Prado). Lança? Metáfora para o falo ereto. Mas o lábio zombeteiro  transforma a lança em macarrão cozido...  A lança, humilhada,  se  encolhe, torna-se incapaz do ato do amor. Há uma relação metafórica entre a lança fálica e a inteligência.
Como a lança fálica, a inteligência ou se alonga e levanta para o ato de conhecer, ou se encolhe, flácida e impotente. O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança ficar ereta ou flácida... O lábio zombeteiro do professor faz a inteligência do aluno refluir.

"Formatura": "formar" é colocar na forma, fechar. Um ser humano "formado" é um ser humano fechado, emburrecido. Educar é abrir. Educar é "desformar". Uma festa de "desformatura"...

Rubem Alves Educador e escritor

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Afeto: Quem dá mais?


Em tempos em que afeto, ou melhor, falta de afeto se torna manchete de jornal, podendo até custar uma indenização de centenas de milhares de reais, e que o Dia das Mães, comemorado ontem, gera o segundo maior lucro anual do comércio nacional, quero discutir um pouco, ou ao menos trazer à discussão, algumas reflexões. 

Que imagens são essas socialmente atribuídas à mãe e ao pai? Quanto custa a falta de afeto familiar? 

Fortemente presente no imaginário coletivo, a ideia de se associar a figura da mãe a uma “santidade” inabalável, da qual se toma posse eterna no ato do parto, deveria ser tratada com, no mínimo, mais prudência. Afeto maternal nem sempre vem da mãe, tanto quanto, a disciplina e a rigidez, socialmente associadas ao paternal, nem sempre são atos do pai. Como disse Danuza Leão, em sua coluna jornalística de ontem “Ninguém dá o que não tem”.

Não pretendo desmotivar a discussão, hoje alargada pelo ato do STJ, ao contrário, penso que a polêmica agora ganha mais combustível para a derrubada de velhos e ultrapassados modelos em busca de uma visão de afeto familiar que seja mais condizente com a realidade.

Para ilustrar, quero compartilhar o vídeo que (re) assisti na última semana ao lado de minha filha, numa atividade escolar oferecida às mães, e com ele homenagear os pais e as mães, que independentemente de qualquer conduta social que lhes é atribuída, oferecem a seus filhos o "porto seguro, o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis"*.





*trecho extraído do texto Mães Desnecessárias, A.D.

domingo, 29 de abril de 2012

Simples Assim...

Quem de nós nunca foi surpreendido por um agente de trânsito sisudo e intolerante a advertir ou multar pessoas com gestos impacientes e grosseiros (ou até palavrões)?
Em tempos de mudanças em nosso código de trânsito, mais uma vez vem à tela o papel da educação no processo de conscientização das pessoas para o trânsito seguro. Alguns crêem que a escola tem papel central no aporte às novas condutas, outros defendem que os investimentos em sinalização e mídia informativa sejam maiores e muitos advogam a favor do endurecimento das penalidades a condutores infratores, mas pouco se fala no papel formativo do agente de trânsito.
O vídeo abaixo mostra o quanto pode ser simples o ato de educar no trânsito: conteúdo e respeito permeados por gentileza.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A reinvenção do prazer

Há alguns dias, durante um programa interativo de rádio, cujo tema discutia a escolha profissional de jovens e adolescentes, os pais expuseram suas aflições e dúvidas sobre “como ajudar seus filhos na escolha de uma profissão que lhes propicie prazer”. Diante da repetida preocupação ali observada, alguém fez um comentário que me causou impacto (e põe impacto nisso!):

“Ora, vamos parar com essa história de querer ter prazer em tudo! Prazer está em sexo, beijo na boca e comer, o resto fazemos porque precisamos e pronto.”

Não me recordo o nome do autor da frase, apenas sei que era um profissional da área da psicologia e/ou da educação. De qualquer forma, quero me ater à sua citação sem aprofundar-me na comprovação ou não de seu conteúdo, e sim, provocar algumas reflexões acerca dessa tese da busca incessante de prazer em tudo que se faz, especialmente no trabalho.

Aliar prazer e trabalho é simplesmente o máximo! E agora? Só resta aceitar a idéia de que devemos simplesmente trabalhar e pronto? Minha rebeldia não me permite tamanha passividade.

Talvez a grande sacada seja a reinvenção do prazer, tornando-o [sim!] um componente sine qua non do cotidiano profissional. É claro que, aos 16 ou 17 anos, não se pode ser tão assertivo na escolha de uma carreira, seria ingenuidade demais acreditar nisso. Contudo, durante toda a “estrada” é possível reinventar o prazer pelo trabalho e romper com a “zona de conforto” que absorve a alma dos profissionais, os aliena e tolhe de qualquer evolução.

Sobre esse tema, muito oportuna é a contribuição de Alcides Ferri: “A zona de conforto conduz o profissional à acomodação e à falta de iniciativa, ou vice-versa. O indivíduo permanece onde tudo é familiar. Na zona de conforto não existe aprendizagem (..) A aprendizagem existe na zona de desconforto voluntário.”

A partir dessa miscelânea de idéias soltas, concluo com a seguinte provocação: Você já experimentou reinventar o prazer pelo seu trabalho? Acomodar-se na zona de conforto te traz prazer? Não vivemos somente de sexo, beijo na boca e comida, então... Mãos à obra!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os desafios da comunicação

Quem de nós, em seus diversos contextos profissionais, ainda não se sentiu constrangido ao ser questionado sobre uma informação que fora transmitida via e-mail, e para a qual não demos a devida importância?
Não é preciso explanar aqui sobre as estatísticas atuais, para concluir que a rotina diária de trabalho nos expõe a um número tão grande de mensagens eletrônicas, que torna impossível a absorção qualitativa das informações ali expressas. Somos levados a estabelecer “filtros” que sintetizam a leitura, selecionando o que é importante e, humanos que somos, nem sempre o fazemos com 100% de acerto.
Sem nenhuma intenção de ser saudosista, não se pode negar que a era da informação tecnológica por excelência nos impõe desafios redobrados no que tange às estratégias de comunicação e informação, seus limites e possibilidades. Qual é o limite da comunicação via e-mail? Sinalizar uma mensagem eletrônica como de “alta prioridade” é suficiente para que seja compreendida? E ainda: essa comunicação substitui todas as outras?
O desafio de superar as falhas de comunicação nas organizações é antigo. Quadros de avisos, bilhetes e, hoje, as bateladas de e-mails. E continuamos nos perdendo em meio às informações, sem estabelecer propostas reais de comunicação. Sim! A escrita e a leitura não são os únicos meios de comunicação e, em grande parte das vezes, não são capazes de substituir a oralidade. Tenho me deparado com pessoas que, de tão habituadas à comunicação escrita, falam como se estivessem escrevendo. É o fim!
As relações humanas são, por natureza, complexas, permeadas de peculiaridades, muitas vezes conflituosas, mas à medida que nos afastamos do diálogo real, priorizando a comunicação eletrônica, certamente nos afastamos do entendimento, da construção de vínculos de confiança e respeito e, lamentavelmente, desumanizamos as relações.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Tecnologia, trabalho e valores

Compartilho o texto abaixo, parte do Boletim “O QUE HÁ DE BOM POR AÍ” número 16, da Cleo Carneiro & Consultores Associados. Gosto muito da abordagem sobre a “mistura” do tempo profissional com o pessoal, da comunicação online sobreposta aos contatos pessoais e da consequente baixa das emoções aí envolvidas. Isto é sentido no dia-a-dia, e nas relações de trabalho, as pessoas deixam de falar, simplesmente escrevem; nas relações entre amigos e familiares não há mais disponibilidade integral, a parafernália eletrônica rouba a atenção o tempo todo. Temos um grande desafio pela frente!


Tecnologia, trabalho e valores

Sabemos que a invenção da imprensa trouxe ao mundo a abertura do conhecimento para legiões de pessoas que até então viviam na ignorância. Nos albores dos anos 90, com a invasão das novas tecnologias eletrônicas que prometiam a elevação da produtividade a níveis nunca antes pensados, era justo que pensássemos que o mesmo milagre iria acontecer.  O mundo ficaria muito melhor. Redução das horas de trabalho, mais lazer, mais horas junto à família ou adquirindo cultura,  e tantas outras coisas boas. Artigo publicado pelo Instituto Ethos www.ethos.org.br em seu boletim “Notícias da Semana” nº 572, escrito por Paulo Itacarambi e Cristina Spéra,  nos faz pensar que talvez as coisas estejam caminhando de maneira bem diferente.
Como a tecnologia invade sua vida em todas as horas, o tempo profissional mistura-se com o tempo pessoal. A comunicação “online” não exige a presença daquele com quem você fala, fazendo com que os contatos pessoais se tornem cada vez mais raros e isso, paulatinamente, faz com que se atenuem as emoções. Deixando de existir a emoção, extingue-se a vida emocional e sem esta não existe vida. Pesquisa recente constatou que na Inglaterra o descanso semanal passou de 48 horas para 27, num claro exemplo de que as pessoas hoje trabalham mais do que ontem. Dizem os autores, que os óbvios malefícios do que ocorre só poderão ser contornados através dos valores. São eles que poderão unir trabalho e emoção, mas que exigirá uma gestão responsável assentada em valores, transparência e diálogo, que tornam o ser humano menos individualista, fazendo-o sentir “que pertence a algo”.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Liderança: Um exercício necessário

“Ao chegar na escola, procure perceber quem é o diretor. Às vezes, o diretor é o inspetor de alunos, o secretário, a merendeira”

Essa fala, ouvi há muitos anos, no curso de pedagogia, da professora que era a nossa supervisora de estágios, e quero abrir essa discussão a partir desse ponto.
É fato que muitos profissionais, nas mais diversas esferas de atuação, ocupam posições hierárquicas que pressupõem a competência para a liderança, contudo esquivam-se de exercitá-la, delegando essa tarefa a terceiros, de forma velada ou não. A essa negligência à condição fundamental de um gestor de pessoas, que é a de ser um líder, chamo de terceirização da liderança.
As consequências dessa postura são, no mínimo, desastrosas. Não se consegue uma dinâmica de trabalho conjunto qualitativo, as iniciativas são pontuais e desarticuladas, as pessoas desmotivam-se com muita facilidade e, em grande parte das vezes, revoltam-se por terem de se submeter às imposições de terceiros.
Diante desse quadro, muitos se perguntam: “Não seria a liderança, um atributo inato? É possível uma pessoa tornar-se um líder?” Penso que sim, contudo só se constitui líder, aquele que se propõe ao pleno exercício da liderança.
Um líder é, sobretudo, um comunicador, um observador atento, um articulador, alguém que não se esquiva de suas responsabilidades, que tem a clareza de que seu papel é propositivo, não lamentando sobre os problemas o tempo todo, e sim, vislumbrando possibilidades. Seu plano de trabalho é claro e objetivo, e este inclui um processo contínuo de auto-desenvolvimento pessoal e profissional.
Nessa linha, muito se tem escrito e discutido sobre a necessidade dos gestores exercerem seu papel de líderes favorecendo o surgimento das lideranças individuais, valorizando e motivando as iniciativas das pessoas, inspirando a inovação e a autonomia, promovendo-as a autoras de suas próprias histórias profissionais.
É certo que a tarefa não é fácil, demanda, especialmente, o desafio de gerir pessoas com autoridade, portanto sem autoritarismo, ferramenta comprovadamente inútil nos dias de hoje. É, portando, um exercício necessário, urgente e, sobretudo, um compromisso a ser assumido e jamais negligenciado.

sábado, 28 de maio de 2011

Índices de felicidade: O que se pode mensurar?

O que é felicidade para você? O que você responderia se estivesse à mesa de um bar, num happy hour com amigos? E se o cenário fosse uma entrevista de emprego? Ou ainda, como você responderia aos 18, aos 30, aos 50 anos de idade?
Dependendo do contexto em que se situa a pergunta, as respostas podem adquirir as mais diversas nuances. A essas variáveis que se relacionam, sobretudo, às experiências internas de cada indivíduo, especialistas no estudo de índices de felicidade, tem chamado de dimensão subjetiva do bem-estar humano.
Em tempos em que a preocupação com a felicidade individual e coletiva tem assumido lugares relevantes na discussão mundial, as pesquisas apontam claramente para a direção de que a dimensão objetiva do bem-estar humano está realmente ligada a melhores condições materiais, qualidade de saúde, moradia, trabalho etc. Como se justifica, inclusive, a PEC da felicidade, acerca da inclusão do direito à felicidade, “Concluiu-se, com base nesse estudo, que pessoas com maior grau de renda se dizem mais felizes (...)”.
Está posto. Não há, até aqui, como rechaçar a ideia de que as condições materiais são relevantes indicadores de felicidade. Ocorre que é no encontro das dimensões objetivas e subjetivas de bem-estar humano que se pode vislumbrar a tão sonhada felicidade.
Há que se superar, portanto, o erro de confundir satisfação de necessidades com felicidade, já que o campo do desejo é indefinido, o que nos faz felizes hoje pode ser totalmente indiferente amanhã. Neste ponto, vale retomar a velha (e atualíssima!) citação freudiana sobre “alcançar a felicidade”: “Não há uma regra infalível que se possa aplicar a todos”.
Para ser mais diretiva, tenho me incomodado um tanto com as atuais pesquisas de índices de felicidade que tentam abranger a esfera do subjetivo pormenorizando-se em questionamentos sobre hábitos e estilos de vida das pessoas. Preocupa-me, não o instrumento em si, mas o encaminhamento que se pretende dar às informações colhidas, se servirão para humanizar as relações nas organizações ou, inversamente, contribuirão para rotular as pessoas.
Sendo assim, todas as iniciativas que, preocupadas em atender à demanda de felicidade das pessoas, seja pela positivação desse direito ou pela busca de mais humanização nas relações, são potencialmente válidas, desde que não tenham a pretensão (ou a ingênua ilusão) de estabelecer critérios únicos de valores para a felicidade, negligenciando as diferenças e propósitos individuais ou, ainda, desconsiderando a sabedoria antiga, que aqui retomo: “Não temos controle sobre as coisas externas a nós”. Logo, a busca da felicidade pode ser entendida como inerente à condição humana, contudo insaciável por princípio.

sábado, 21 de maio de 2011

O embate forma x conteúdo nas relações hierárquicas: Revisando velhos modelos

Tenho observado com maior atenção algumas situações cotidianas acerca da gestão de pessoas nas organizações, especialmente quando se trata dos jovens. Não por acaso. Há algum tempo iniciei estudos mais densos sobre o tema e sigo me sentindo seduzida pelas reais conexões com muito do que já estudei e pratiquei na educação.
Recentemente, estive numa loja de serviços de assistência técnica de celulares e, tentando conter o mau-humor de quem comparecia pela terceira vez à loja e continuava com o aparelho quebrado, observei uma cena que hoje trago à reflexão daqueles que gerenciam jovens.
Um guichê de atendimento. De um lado uma cliente (eu), do outro, uma moça com idade aparente de 16 ou 17 anos e um semblante que denunciava o quanto aquele trabalho era entediante para ela. Enquanto “discutíamos a relação” sobre o aparelho defeituoso, fomos interrompidas pelo vigia da loja que lhe entregou um papel e,  timidamente, proferiu a seguinte frase: “O RH mandou você assinar. Ela disse que já falou com você.”. Não pude me furtar de ler (afora a curiosidade, o papel foi colocado a poucos centímetros dos meus olhos). Era uma advertência. A atendente estava sendo advertida por vestir-se fora dos padrões da empresa.
Não pretendo me ater ao conteúdo em questão, mas sim à forma como foi tratado.
Será que expor a jovem a esse constrangimento faz com que essa empresa extraia o melhor dessa funcionária? Quem é a RH, um ser abstrato que precisa falar através do vigia da loja? Onde estava esse líder que não era capaz de tratar a questão diretamente? E, sobretudo, será que essa RH já parou para pensar que os padrões de vestimenta da empresa podem ser absolutamente novos para a jovem que, talvez, não precise tanto de advertência, e sim de orientação?
Claro que a cena aqui descrita serviu somente de ilustração, já que careceria de uma análise mais criteriosa para ser abordada de forma profunda, mas aos líderes que se utilizam das normas como argumento único de suas exigências, sem se preocupar com a humanidade que cerca esse tipo de assunto, fica o recado: as empresas, cada vez mais, precisam menos de vocês.

Vale lembrar, senhor ministro.

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